Alegando desequilíbrio econômico-financeiro, o Hospital Itamed notificou a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) de que pretende interromper os serviços de maternidade e partos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Foz do Iguaçu e em Santa Terezinha de Itaipu no prazo de até 60 dias.
A medida preocupa o setor de saúde da região, que já enfrenta déficit estimado de pelo menos 300 leitos, entre enfermarias e unidades de terapia intensiva (UTIs), além da falta de serviços de média e alta complexidade em algumas especialidades.
No documento encaminhado ao Governo do Estado, o hospital aponta uma “disparidade insustentável na operação”. Segundo a unidade, os atendimentos pelo SUS representam 78% do volume total, mas correspondem a apenas 18% da receita bruta. Outros 30% são provenientes de convênios e atendimentos particulares.
A direção também destaca mudanças no modelo de financiamento. A Itaipu Binacional, que anteriormente contribuía com recursos para custeio da saúde, passou a direcionar os investimentos exclusivamente para melhorias estruturais.
Risco de colapso na rede
O presidente do Conselho Municipal de Saúde (Comus), Khalid Omairi, alerta que a interrupção dos serviços pode retirar cerca de 500 atendimentos mensais da rede.
“Pode colapsar toda a rede de saúde”, afirmou.
Segundo ele, o conselho foi informado da situação em reunião com a direção do hospital. Como encaminhamento, foi solicitada uma reunião com a 9ª Regional de Saúde e com a Sesa para tentar evitar a suspensão.
A rede pública já opera sob pressão. No Hospital Municipal de Foz do Iguaçu, filas de macas nos corredores se tornaram frequentes.
Além disso, o município precisa custear o deslocamento de pacientes e acompanhantes para outros centros, como Curitibae Londrina, devido à ausência de serviços de alta complexidade, como neurocirurgia. A previsão é de gasto de cerca de R$ 75 milhões neste ano com esse tipo de atendimento.
Déficit milionário
O Hospital Itamed afirma que o desequilíbrio financeiro está ligado à defasagem histórica nos repasses do SUS, especialmente em serviços de média e alta complexidade, como UTIs, exames avançados e cirurgias.
Em 2025, os atendimentos vinculados ao SUS geraram um custo aproximado de R$ 161,5 milhões para a Fundação Itaiguapy, responsável pela administração da unidade. No mesmo período, o faturamento do contrato com o Governo do Estado foi de R$ 52 milhões.
A unidade também recebeu R$ 58 milhões via convênio com a Itaipu Binacional para apoio ao custeio do SUS. Ainda assim, registrou déficit de R$ 51,3 milhões, absorvido por receitas de convênios e atendimentos particulares.
Demissões e impacto interno
A crise também atinge o quadro de funcionários. Segundo o Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos e Serviços de Saúde de Foz do Iguaçu e Região (SEESSFIR), cerca de 300 trabalhadores foram demitidos no último ano.
Os desligamentos chegaram a ser investigados pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), sob suspeita de configurarem demissões coletivas. De acordo com o sindicato, o hospital justificou a medida pelo aumento de contratações durante a pandemia, atualmente considerado insustentável.
O que muda no atendimento
Em nota, o Hospital Itamed informou que vem atendendo acima do previsto em contrato, sem o devido repasse financeiro, e que tenta negociar a revisão dos valores com o Governo do Estado há mais de um ano.
A unidade realiza partos de risco habitual para Foz do Iguaçu e Santa Terezinha de Itaipu, além de ser referência em gestação de alto risco para os nove municípios da 9ª Regional de Saúde.
Com a possível mudança, os partos de risco habitual devem ser encerrados gradualmente em até 60 dias. Já os atendimentos de alto risco continuarão normalmente, assim como outros serviços, como cardiologia, oncologia e especialidades.
O hospital afirma que a decisão foi tomada com responsabilidade, visando garantir a continuidade dos demais atendimentos.
Sobre as demissões, a instituição informa que realizou mais de 280 contratações em 2025 e que o processo no MPT foi arquivado.
A unidade também ressalta que a Itaipu Binacional segue como parceira, com previsão de R$ 53,9 milhões em custeio social do SUS neste ano, além de investimentos em estrutura e tecnologia.
Por fim, o Itamed afirma que permanece aberto ao diálogo com o Governo do Estado em busca de uma solução que garanta a continuidade dos serviços.
Segundo o Conselho Municipal de Saúde, os demais hospitais da cidade não têm capacidade de absorver a demanda, já que o Itamed é a única unidade com maternidade estruturada e UTI neonatal na região.
Hospital Itamed concentra partos pelo SUS e pode interromper atendimento em 60 dias-Foto: Itamed

